sexta-feira, dezembro 30, 2005

Resposta ao Zé


  • A propósito será o nosso PM professor? Segundo alguns até podia ser, mas não, não é.

A propósito de Treinadores - Zé Povinho

Em 1875, o genial caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro, retratando a sociedade portuguesa do tempo, cria uma das suas mais conhecidas personagens: O Zé-Povinho. Símbolo do "ignorante, servil, boneicheirão, com a sua albarda e o seu riso soez". Era a imagem da raia-miúda portuguesa (J.Augusto-França), explorada por políticos corruptos e incompetentes. Ainda hoje esta personagem continua a ser evocada, quando se pretende criticar certos comportamentos colectivos estúpidos e alarves face à sociedade e a política. (in acultura )

Treinadores de Bancada













A propósito do artigo do Público sobre os dinheiros do Prodep e a formação contínua os populares manifestam-se de forma inequivoca, revelando um pouco de como é hoje vista a profissão docente. Transcrevo alguns que muito me agradaram:

Grandes sindicatos
Por Anónimo, Porto

Com sindicatos como estes, os professores continuarão a ser considerados preguiçosos, neglicentes, maus profissionais que só aolham aos seus próprios interesses. Já agora, porque é que não estão nas escolas a trabalhar? Estão de férias? Rica vida e nós a pagar para isto! Haja decoro e trabalhem.

Para os nossos professores tudo é pouco

Por R. Figueiredo - Lisboa

Com sucessivos governos a darem aquilo que a maioria não merece, o corporativismo "professores" tem engordado nas suas exigencias. Temos por isso hoje maus professores muito bem pagos . Mas pouco a pouco os corporativismos ir-se-ão autodestruindo, é o seu fim inevitavel. Numa coisa o governo tem culpa, é nas justificações para terminar os privilégios. A justificação não tem de ser na base das dificuldades económicas, mas sim nas da igualdade e no "preço da competência", pagar bem a professores incompetentes é perpetuar o circulo.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Prodep, o dinheiro e as dúvidas

Sobre a atribuição de dinheiros do Prodep o Público tem hoje uma notícia interessante. Sobre a mesma e apenas posso dizer que o ministério na sua breve declaração não esclarece com factos as dúvidas levantadas pelo sindicato. Todos sabemos como este se tem pronunciado ferozmente contra a politica deste ministério e se dúvidas existem o ministério não as dissipa o que é mau. Não chegam as declarações de boas intenções e de imparcialidade era preciso mais. Nomeadamente porque se vai percebendo desde o episódio da greve aos exames e respectiva e duvidosa noção de serviços minimos que quem não está com a ministra está contra ela e esta não se faz de rogada em usar as armas de que dispõe numa atitude de arrogância que revela alguma fragilidade.

Avaliação - Alunos - Parte II


Para compreender a questão da avaliação é necessário compreender como funciona no dia a dia o processo de ensino e aprendizagem. Vou tornar a coisa o mais simples possível e centrar a minha exposição no ensino básico por se tratar do ensino obrigatório, mais propriamente no 3º ciclo, o último.

É aqui que o sistema educativo português começa a revelar a sua esquizofrenia na medida em que o que é solicitado aos professores a nível pedagógico na relação a construir com os seus alunos não é de todo compatível com modelos de avaliação nacionais tipificados e normalizados em versões de exame.

Não é sério pedir aos professores que implementem uma determinada filosofia de ensino centrada em metodologias mais construtivistas e menos centradas nas matérias e usar exames nacionais, normalizados para avaliar o desempenho dos alunos. Não é sério para com os alunos e muito menos para com trabalho desenvolvido pelos professores.

Aqui o ministério (não necessariamente esta ministra) descobriu que podia fazer exames nacionais sem comprometer o futuro dos alunos. Assim temos ao longo do ensino básico várias provas cujo peso não compromete o percurso do aluno mas os seus resultados têm permitido avaliar (julgar) o sistema de ensino. Ou seja supõe-se avaliar o que os alunos aprenderam, de acordo com uma matriz nacional que se tem vindo a diluir com a autonomia das escolas.

Quem não se lembra das orientações para os exames de nono ano onde era suposto o exame abordar sobretudo conteúdos do nono ano? Depois foi descobrir que afinal lá estava todo o programa do 3º Ciclo. Havia claro está uma razão para isto: a autonomia das escolas permite que os conteúdos possam ser geridos de forma diferente assim um determinado conteúdo apresentado aos alunos no 8º ano pode noutra escola aparecer no 9º ano.

Existe aqui no entanto um aspecto caricato. Todas as escolas foram de uma forma mais ou menos tácita obrigadas a gerir os conteúdos da mesma maneira devido ao facto de as editoras dos manuais escolares (todas) terem à medida que a reforma entrava em vigor ano após ano apresentado o manual para esse mesmo ano. Assim quando o 7º ano entrou na reforma os manuais apresentados pelas editoras versavam todos a mesma matéria não se verificando uma proposta completa para o 3º ciclo.

Relativamente às referidas provas e comportamento dos alunos perante as mesmas verifica-se um manifesto desinteresse. Claro está os alunos não nasceram ontem e num mar de permissividade e de falta de rigor quem os consegue motivar para um desempenho à altura das suas capacidades quando o resultado dificilmente interferirá com as classificações já obtidas.

A perversidade vai mais longe e arrisco-me mesmo a dizer que andamos, nós os professores a dormir quando não protestamos com coisas destas e passo a explicar.

Sou professor de Física e Química e o ano passado a alguns alunos já “chumbados” foi-lhes facultado de acordo com a lei a realizar exames nacionais. Assim estes alunos tiveram um exame nacional a todas as disciplinas e uma prova oral. Para além de ter de corrigir a prova escrita tive de realizar e avaliar a prestação oral destes alunos que todos sabemos dificilmente obteriam a aprovação. Afinal tinham acabado de ser avaliados à coisa de uma ou duas semanas. O que teria mudado entretanto que justificasse nova avaliação? Claro está que nada se alterou nem a avaliação tendo obtido quer na prova oral quer na escrita classificações reduzidíssimas. Para meu espanto a estória não terminou aqui e somos todos os professores responsáveis pelas provas realizadas convocados para uma reunião que deveria avaliar as diferentes situações e ponderar a passagem ou não dos referidos alunos. Para maior espanto meu era possível tendo em conta o registo biográfico dos alunos entre outros factores justificar a passagem destes alunos apesar de terem obtido classificações negativas. Andam a gozar com o trabalho dos professores, não acham?

Tudo isto é mais grave quando no final do ano somos obrigados a realizar uma prova global, respectiva matriz com critérios de correcção e mais duas provas idênticas. Claro está nada demais. Mas o peso destas provas é ridículo e mais uma vez os alunos descuram o trabalho não se empenhando para as mesmas e o que é mais grave assinam e fazem umas coisitas para não terem nível um, a única classificação que os poderia comprometer.

O professor para além de ter de preparar as provas e as corrigir tem de aceitar isto como um comportamento normal? No fim vêm os treinadores de bancada dizer que os professores isto e aquilo…

quarta-feira, dezembro 28, 2005

A avaliação - Parte I


A avaliação quer se trate dos alunos, das escolas, dos professores ou do sistema educativo não pode ser visto desarticuladamente. Todos os aspectos estão interligados e não é possível falar seriamente de um sem ponderar e ter em perspectiva os outros.

Avaliar implica ser objectivo e para isso é necessário tê-los. Não podemos olhar para algo e dizer que não gostamos. Isso seria reduzir este importante instrumento do sistema a uma arma de arremesso.

É isso que hoje corre nos media, na cabeça de muitos fazedores de opinião e que ao longo dos últimos meses muito têm magoado os professores. Falo claro está de Miguel Sousa Tavares, do irmão do presidente da República, de Eduardo Prado Coelho assim como de vários outros jornalistas. Todos de modo leviano têm opiniões que entram em ressonância com o desejo oculto de vingança por algum professor que tiveram e que os marcou ou simplesmente por nunca terem tido o professor que desejariam. Não ousaria pensar que desejam inconscientemente que a escola os substitua nos seus deveres como primeiros educadores. Para isso a escola (ainda) não está preparada e seria insensato pensar que essa seria razão da sua fúria.

terça-feira, dezembro 27, 2005

À procura de resultados

Na mais recente publicação ministério da educação podem ler em "Medidas de combate ao insucesso escolar" não uma preocupação com a aprendizagem propriamente dita, mas sim com os resultados:

Em Portugal, todos os anos saem do sistema educativo cerca de 17 mil alunos sem completarem o ensino básico. O resultado acumulado desta situação, ano após ano lectivo, traduz-se na existência de 200 mil jovens com menos de 24 anos sem a escolaridade obrigatória.

e faz um aviso à comunidade:

Atendendo a que a retenção de um aluno deve constituir o último recurso, depois de esgotadas todas as actividades que tenham como objectivo a sua recuperação,

assim,

o Ministério da Educação (ME) vai reforçar, este ano lectivo, as medidas para combater o insucesso escolar e a saída precoce do sistema educativo.

a solução proposta são os planos de recuperação e como se pode ler,

para combater o insucesso escolar e a saída precoce do sistema educativo, o Ministério da Educação deu condições às escolas para que reorganizassem o trabalho escolar de modo a optimizarem as condições de aprendizagem dos alunos do ensino básico.

Do que se conclui que o ministério identificou a razão de ser do insucesso escolar em Portugal: a má organização das escolas e as fracas condições de aprendizagem dos alunos e que estas dependem exclusivamente da escola.

Qual a novidade desta legislação?
A criação de planos de acompanhamento e mais nada.

De resto verifica-se o aumento da burocracia. O que o ministério não explicita de forma clara é que se o aluno tem dificuldades ( ou seja não corresponde às exigências dos programas) devem as escolas gerir os recursos humanos de forma a estes ajudarem os alunos a ultrapassarem as suas dificuldades.

Isto é muito bonito. Mas tem tem implicações a nível do trabalho dos professores: o desenho de planos de recuperação, mais horas nos horários dos professores para a recuperação dos alunos (horas da componente não lectiva). Ora isto compromete a qualidade do trabalho de preparação das aulas e entra, como já demonstrei, em conflicto com os interesses das turmas e respectivos alunos atribuidos aos professores cuja prioridade ninguém pode pôr em causa.

Esta legislação não contempla o caso dos alunos que não trabalham e não se esforçam. Não contempla os alunos que simplesmente aparecem na escola não para aprenderem mas para conviverem.

Qual a resposta para estes alunos? mais do mesmo, mais aulas, mais trabalhos que estes alunos não irão aproveitar, mas que os professores se os quiserem reter terão de promover à custa do seu tempo e trabalho. Trabalho tomado por alunos desfasados, desinteressados e muitas vezes problemáticos.

Resumidamente se um professor pretender reter um aluno irá ter para além de um aumento da burocracia, já de si imensa, trabalho acrescido despendido com alunos não produtivos.
Ora isto constitui um incentivo ao abaixamento da qualidade do ensino com consequências devastadoras para o ensino público e para a credibilidade dos professores do ensino público.

Aqui convém assinalar dois factos:

  • que os professores já vêm de algum tempo a esta parte baixando o nível de exigência para com os seus alunos quer em consequência dos novos programas quer pelo simples facto de os alunos apresentarem cada vez mais dificuldades quando lhes chegam às mãos.
  • Os planos de recuperação sempre foram implementados e em tempos eram mesmo propostos para aulas de apoio devidamente planeadas de modo a suprirem as dificuldades identificadas. Mas apenas eram propostos alunos cuja recuperação fosse possível.
A resposta aos problemas educativos em portugal passa mais uma vez por uma resposta legislativa descontextualizada e que visa obter de uma forma administrativa o sucesso educativo. Não se admirem por isso se daqui a três anos o "sucesso" estatístico estiver na ordem do dia como um dos resultados da governação de Socrates. Pena é que isso nada acrescente à qualificação dos portugueses.

Cuspir na autoridade

Mais um caso nas aulas de substituição, numa escola de Rio Tinto são necessários dois professores para uma das turmas já que os professores se recusam a ir sozinhos. Muitos foram literalmente expulsos à "cuspidela" da sala de aula pela turma toda. Em outras escolas até os professores destacados faltam às aulas de substituição de determinadas turmas, pois a situação é insuportável.
É caso para pedir à Srª Ministra que venha mostrar como se faz e talvez fazer umas das suas graças com estes alunos. Os professores estão sempre dispostos a aprender.

domingo, dezembro 25, 2005

Folheto de propaganda do Ministério da Educação



Agora surge nas escolas um fanzine e respectivo sitio em linha.
Vale a pena ler o editorial e dar uma vista de olhos.
Tudo em http://www.professores.pt/

domingo, dezembro 18, 2005

Escravidão em Portugal



Agora com o art. 50 avizinham-se mais horas na escola. Muitas já avisaram os professores que têm de dar mais duas horas da sua componente não lectiva para actividades de recuperação de alunos.

A componente não lectiva não é um saco sem fundo.

As medidas por muito incontestáveis que possam ser não devem entrar em rota de colisão com os direitos dos professores. Os professores têm direito a ter um horário como qualquer trabalhador. Saber onde começa e onde terminam as suas obrigações e o tempo de serviço. Assim não é possível garantir a qualidade de ensino.

Passo a expor alguns factos que estão na base da minha revolta e também desânimo:

  • Tem sido ao longo destes anos e sempre pela mão de governos PS reduzida a componente não lectiva dos professores e aumentada a carga dos professores. Sim o número de turmas por professor tem aumentado nos últimos anos com a diminuição do número de horas por disciplina. Isso tem implicações na qualidade do ensino. Por um lado os alunos têm uma imensidão de professores e disciplinas por outro representam apenas uma das seis ou sete turmas de um professor e um dos cerca de 230 alunos.

  • Quando o governo passou dos 50 minutos para os 45 minutos disse que os professores tinham de dar esses 5 minutos em falta à escola. Para além da mesquinhez, já que qualquer professor dá mais do que isso aos seus alunos no final das aulas e não são 5 minutos que comprometem o cumprimento dos programas isso contabiliza-se em duas horas de superveniente. A diferença existe no tempo que o professor passa na escola: mais duas horas. Ora isto não passa de uma atitude típica de chico-espertismo como o classificaria de certeza o ainda Presidente da República e não é digno de pessoas de bem.

  • Em consequência da implementação das área curriculares não disciplinares os professores fazem mais reuniões do que nunca, sempre em horários ao fim do dia depois de imensas aulas. Qual a qualidade destas reuniões?

  • As actividades de substituição implicam o contacto com alunos e devem ser consideradas lectivas e pagas ou integradas no horário do professor. É aqui que o governo se revela pleno de demagogia. Não pagando estas horas e até lhe tendo escapado coisas como “fazer graças” é óbvio que não é na qualidade desses tempos que está preocupado mas na demagogia e populismo das medidas. Se fosse sério e desejasse a qualidade desses tempos faria de outra forma.

Será que ninguém vê isto? Será pura ignorância ou a demagogia populista deste governo é tal que não se importa de comprometer o ensino público?