terça-feira, dezembro 27, 2005

À procura de resultados

Na mais recente publicação ministério da educação podem ler em "Medidas de combate ao insucesso escolar" não uma preocupação com a aprendizagem propriamente dita, mas sim com os resultados:

Em Portugal, todos os anos saem do sistema educativo cerca de 17 mil alunos sem completarem o ensino básico. O resultado acumulado desta situação, ano após ano lectivo, traduz-se na existência de 200 mil jovens com menos de 24 anos sem a escolaridade obrigatória.

e faz um aviso à comunidade:

Atendendo a que a retenção de um aluno deve constituir o último recurso, depois de esgotadas todas as actividades que tenham como objectivo a sua recuperação,

assim,

o Ministério da Educação (ME) vai reforçar, este ano lectivo, as medidas para combater o insucesso escolar e a saída precoce do sistema educativo.

a solução proposta são os planos de recuperação e como se pode ler,

para combater o insucesso escolar e a saída precoce do sistema educativo, o Ministério da Educação deu condições às escolas para que reorganizassem o trabalho escolar de modo a optimizarem as condições de aprendizagem dos alunos do ensino básico.

Do que se conclui que o ministério identificou a razão de ser do insucesso escolar em Portugal: a má organização das escolas e as fracas condições de aprendizagem dos alunos e que estas dependem exclusivamente da escola.

Qual a novidade desta legislação?
A criação de planos de acompanhamento e mais nada.

De resto verifica-se o aumento da burocracia. O que o ministério não explicita de forma clara é que se o aluno tem dificuldades ( ou seja não corresponde às exigências dos programas) devem as escolas gerir os recursos humanos de forma a estes ajudarem os alunos a ultrapassarem as suas dificuldades.

Isto é muito bonito. Mas tem tem implicações a nível do trabalho dos professores: o desenho de planos de recuperação, mais horas nos horários dos professores para a recuperação dos alunos (horas da componente não lectiva). Ora isto compromete a qualidade do trabalho de preparação das aulas e entra, como já demonstrei, em conflicto com os interesses das turmas e respectivos alunos atribuidos aos professores cuja prioridade ninguém pode pôr em causa.

Esta legislação não contempla o caso dos alunos que não trabalham e não se esforçam. Não contempla os alunos que simplesmente aparecem na escola não para aprenderem mas para conviverem.

Qual a resposta para estes alunos? mais do mesmo, mais aulas, mais trabalhos que estes alunos não irão aproveitar, mas que os professores se os quiserem reter terão de promover à custa do seu tempo e trabalho. Trabalho tomado por alunos desfasados, desinteressados e muitas vezes problemáticos.

Resumidamente se um professor pretender reter um aluno irá ter para além de um aumento da burocracia, já de si imensa, trabalho acrescido despendido com alunos não produtivos.
Ora isto constitui um incentivo ao abaixamento da qualidade do ensino com consequências devastadoras para o ensino público e para a credibilidade dos professores do ensino público.

Aqui convém assinalar dois factos:

  • que os professores já vêm de algum tempo a esta parte baixando o nível de exigência para com os seus alunos quer em consequência dos novos programas quer pelo simples facto de os alunos apresentarem cada vez mais dificuldades quando lhes chegam às mãos.
  • Os planos de recuperação sempre foram implementados e em tempos eram mesmo propostos para aulas de apoio devidamente planeadas de modo a suprirem as dificuldades identificadas. Mas apenas eram propostos alunos cuja recuperação fosse possível.
A resposta aos problemas educativos em portugal passa mais uma vez por uma resposta legislativa descontextualizada e que visa obter de uma forma administrativa o sucesso educativo. Não se admirem por isso se daqui a três anos o "sucesso" estatístico estiver na ordem do dia como um dos resultados da governação de Socrates. Pena é que isso nada acrescente à qualificação dos portugueses.

2 comentários:

f... disse...

O que a ME não quer perceber é que em cada escola há "meia dúzia" de alunos com dificuldades reais (e esses, normalmente, já têm aulas de apoio)... a grande maioria não pega num livro, nem se dá ao trabalho de ouvir o que se passa nas aulas, não fazem TPCs, não levam qualquer tipo de material para a escola.
Cada vez mais, meninos e pais esperam que "as coisas sejam dadas", que caia tudo do céu... não se promove uma cultura de trabalho!... é tudo uma maçada!... E a culpa do insucesso reverte toda para os professores … como de costume, não sabem ensinar … não sabem motivar! A cultura do facilitismo está em crescendo, apoiada/promovida pelo ME e pelo Albino.
É preciso que os meninos passem... que as estatísticas "para inglês ver" sejam melhores... o resto não interessa.
É preciso que os profs estejam ocupados, para "contribuinte ver" (porque isto de preparar aulas não se vê)... estes malandros não podem chumbar meninos e andar na boa vida (até porque o Albino precisa que o filho esteja ocupado para poder ter tempo livre para andar nos OCS a dizer mal dos profs).

Esquecem-se de pormenores como estes: 90% "dos meninos" da minha escola (escola como muitas outras, escola de uma zona de realojamento na sua maioria de caboverdeanos e de ciganos) não querem ser doutores! (há 10%, se tanto, que pensam num futuro diferente). Eles gostam de trabalhos de oficinas... de actividades em que façam "coisas" e aí eles aprendem a teoria necessária (sempre que há um atelier desses as inscrições superam as expectativas) - disto o ME não dá ... Eles querem ser cabeleireiras, mecânicos, futebolistas, carpinteiros…
Esta estória das condições de realojamento tem outras implicações (apercebo-me disto na zona da minha escola): é-lhes dada casa, é-lhes dado subsídios, é-lhes dado zonas de desporto, é-lhes dado zonas de ateliers de tempos livres, é-lhes proporcionado um sem número de projectos de integração, etc … não lhes é pedido contrapartidas … cai-lhes tudo do céu … não precisam de esforçar a não ser para ter o pão de cada dia … para que será preciso estudar se vem tudo parar às mãos?
Mas não são só estes que não trabalham por estar habituados a que lhes caia tudo do céu … parece-me que este facto se estende a quase todas as classes sociais … os meninos deixaram de precisar de trabalhar para ter o que querem (formas de compensação para outras faltas) … e agora que o insucesso é culpa dos professores, mais uma razão para não o fazerem.
No entanto, a resposta do ME aos problemas do insucesso, resultantes de uma série de condicionalismos sociais, é o aumento de horas de trabalho dos professores!!! A milu não perceberá que a quantidade é inimiga da qualidade?

No CP, pedi, como ferramentas para a recuperação dos “meninos”, uma broca e um funil … parece-me a única forma de combater o insucesso, nos moldes em que o ME o entende.

Resultado: estou cada vez mais desencantada ... mais desmotivada ... e acho que não sou só eu!

PS: Gostei do teu blog

Miguel Pinto disse...

A ideia que o ME quer passar para a opinião pública é que o sistema educativo é o sistema escolar. Ao fazê-lo, e aqui concordo com a f, transfere para a escola o ónus do insucesso escolar, quando o sucesso escolar é apenas uma face do sucesso educativo.
Creio que o ME, por falta de meios ou de ideias, não parece preocupado com o sucesso educativo. Demagogias…