
- A propósito será o nosso PM professor? Segundo alguns até podia ser, mas não, não é.
Sobre o ensino e educação todos têm uma visão. Este é um país com dez milhões de alunos ou ex-alunos. Todos têm uma opinião sobre o que é ser professor e ensinar. Ora isto é algo único não se verificando o mesmo com qualquer outra profissão.
É aqui que o sistema educativo português começa a revelar a sua esquizofrenia na medida em que o que é solicitado aos professores a nível pedagógico na relação a construir com os seus alunos não é de todo compatível com modelos de avaliação nacionais tipificados e normalizados em versões de exame.
Não é sério pedir aos professores que implementem uma determinada filosofia de ensino centrada em metodologias mais construtivistas e menos centradas nas matérias e usar exames nacionais, normalizados para avaliar o desempenho dos alunos. Não é sério para com os alunos e muito menos para com trabalho desenvolvido pelos professores.
Aqui o ministério (não necessariamente esta ministra) descobriu que podia fazer exames nacionais sem comprometer o futuro dos alunos. Assim temos ao longo do ensino básico várias provas cujo peso não compromete o percurso do aluno mas os seus resultados têm permitido avaliar (julgar) o sistema de ensino. Ou seja supõe-se avaliar o que os alunos aprenderam, de acordo com uma matriz nacional que se tem vindo a diluir com a autonomia das escolas.
Quem não se lembra das orientações para os exames de nono ano onde era suposto o exame abordar sobretudo conteúdos do nono ano? Depois foi descobrir que afinal lá estava todo o programa do 3º Ciclo. Havia claro está uma razão para isto: a autonomia das escolas permite que os conteúdos possam ser geridos de forma diferente assim um determinado conteúdo apresentado aos alunos no 8º ano pode noutra escola aparecer no 9º ano.
Existe aqui no entanto um aspecto caricato. Todas as escolas foram de uma forma mais ou menos tácita obrigadas a gerir os conteúdos da mesma maneira devido ao facto de as editoras dos manuais escolares (todas) terem à medida que a reforma entrava em vigor ano após ano apresentado o manual para esse mesmo ano. Assim quando o 7º ano entrou na reforma os manuais apresentados pelas editoras versavam todos a mesma matéria não se verificando uma proposta completa para o 3º ciclo.
Relativamente às referidas provas e comportamento dos alunos perante as mesmas verifica-se um manifesto desinteresse. Claro está os alunos não nasceram ontem e num mar de permissividade e de falta de rigor quem os consegue motivar para um desempenho à altura das suas capacidades quando o resultado dificilmente interferirá com as classificações já obtidas.
A perversidade vai mais longe e arrisco-me mesmo a dizer que andamos, nós os professores a dormir quando não protestamos com coisas destas e passo a explicar.
Sou professor de Física e Química e o ano passado a alguns alunos já “chumbados” foi-lhes facultado de acordo com a lei a realizar exames nacionais. Assim estes alunos tiveram um exame nacional a todas as disciplinas e uma prova oral. Para além de ter de corrigir a prova escrita tive de realizar e avaliar a prestação oral destes alunos que todos sabemos dificilmente obteriam a aprovação. Afinal tinham acabado de ser avaliados à coisa de uma ou duas semanas. O que teria mudado entretanto que justificasse nova avaliação? Claro está que nada se alterou nem a avaliação tendo obtido quer na prova oral quer na escrita classificações reduzidíssimas. Para meu espanto a estória não terminou aqui e somos todos os professores responsáveis pelas provas realizadas convocados para uma reunião que deveria avaliar as diferentes situações e ponderar a passagem ou não dos referidos alunos. Para maior espanto meu era possível tendo em conta o registo biográfico dos alunos entre outros factores justificar a passagem destes alunos apesar de terem obtido classificações negativas. Andam a gozar com o trabalho dos professores, não acham?
Tudo isto é mais grave quando no final do ano somos obrigados a realizar uma prova global, respectiva matriz com critérios de correcção e mais duas provas idênticas. Claro está nada demais. Mas o peso destas provas é ridículo e mais uma vez os alunos descuram o trabalho não se empenhando para as mesmas e o que é mais grave assinam e fazem umas coisitas para não terem nível um, a única classificação que os poderia comprometer.
O professor para além de ter de preparar as provas e as corrigir tem de aceitar isto como um comportamento normal? No fim vêm os treinadores de bancada dizer que os professores isto e aquilo…
A avaliação quer se trate dos alunos, das escolas, dos professores ou do sistema educativo não pode ser visto desarticuladamente. Todos os aspectos estão interligados e não é possível falar seriamente de um sem ponderar e ter em perspectiva os outros.
Avaliar implica ser objectivo e para isso é necessário tê-los. Não podemos olhar para algo e dizer que não gostamos. Isso seria reduzir este importante instrumento do sistema a uma arma de arremesso.
É isso que hoje corre nos media, na cabeça de muitos fazedores de opinião e que ao longo dos últimos meses muito têm magoado os professores. Falo claro está de Miguel Sousa Tavares, do irmão do presidente da República, de Eduardo Prado Coelho assim como de vários outros jornalistas. Todos de modo leviano têm opiniões que entram em ressonância com o desejo oculto de vingança por algum professor que tiveram e que os marcou ou simplesmente por nunca terem tido o professor que desejariam. Não ousaria pensar que desejam inconscientemente que a escola os substitua nos seus deveres como primeiros educadores. Para isso a escola (ainda) não está preparada e seria insensato pensar que essa seria razão da sua fúria.
De resto verifica-se o aumento da burocracia. O que o ministério não explicita de forma clara é que se o aluno tem dificuldades ( ou seja não corresponde às exigências dos programas) devem as escolas gerir os recursos humanos de forma a estes ajudarem os alunos a ultrapassarem as suas dificuldades.
Isto é muito bonito. Mas tem tem implicações a nível do trabalho dos professores: o desenho de planos de recuperação, mais horas nos horários dos professores para a recuperação dos alunos (horas da componente não lectiva). Ora isto compromete a qualidade do trabalho de preparação das aulas e entra, como já demonstrei, em conflicto com os interesses das turmas e respectivos alunos atribuidos aos professores cuja prioridade ninguém pode pôr em causa.
Esta legislação não contempla o caso dos alunos que não trabalham e não se esforçam. Não contempla os alunos que simplesmente aparecem na escola não para aprenderem mas para conviverem.
Qual a resposta para estes alunos? mais do mesmo, mais aulas, mais trabalhos que estes alunos não irão aproveitar, mas que os professores se os quiserem reter terão de promover à custa do seu tempo e trabalho. Trabalho tomado por alunos desfasados, desinteressados e muitas vezes problemáticos.
Resumidamente se um professor pretender reter um aluno irá ter para além de um aumento da burocracia, já de si imensa, trabalho acrescido despendido com alunos não produtivos.
Ora isto constitui um incentivo ao abaixamento da qualidade do ensino com consequências devastadoras para o ensino público e para a credibilidade dos professores do ensino público.
Aqui convém assinalar dois factos:
Agora com o art. 50 avizinham-se mais horas na escola. Muitas já avisaram os professores que têm de dar mais duas horas da sua componente não lectiva para actividades de recuperação de alunos.
A componente não lectiva não é um saco sem fundo.
As medidas por muito incontestáveis que possam ser não devem entrar em rota de colisão com os direitos dos professores. Os professores têm direito a ter um horário como qualquer trabalhador. Saber onde começa e onde terminam as suas obrigações e o tempo de serviço. Assim não é possível garantir a qualidade de ensino.
Passo a expor alguns factos que estão na base da minha revolta e também desânimo:
Será que ninguém vê isto? Será pura ignorância ou a demagogia populista deste governo é tal que não se importa de comprometer o ensino público?
Vamos admitir que é consensual a existência de actividades obrigatórias de substituição. Sim obrigatórias, para os alunos.É disso que falo, não são de livre frequência, os alunos têm de ir às actividades planeadas caso falte o seu professor.
Ainda que existam escolas que se furtaram ao modelo das aulas de substituição essas actividades têm sido de difícil implementação e não cabe aqui discutir as razões ainda que fosse pertinente faze-lo. Importa sim explicar, denunciar o que realmente se passa:
Uma escola do grande Porto foi das poucas a fugir ao esquema das aulas de substituição. Os professores da escola rejeitaram a ideia de que podem ser substituídos. É uma actividade onde a dimensão humana é o fulcro das acções mediadas por si.
Não é no entanto para falar das aulas de substituição que aqui escrevo mas para relatar um caso em que os órgãos directivos da escola implementaram actividades orientadas por professores. Assim não existem aulas de substituição.
Quando um professor falta os alunos são encaminhados para espaços "devidamente" preparados onde professores os aguardam e orientarão actividades. Essas actividades vão desde a Sala de apoio, Biblioteca, Clube de Leitura, Espaços das Ciências, Ludomática, etc. Esses espaços foram preparados pelos diferentes departamentos/grupos disciplinares de modo suprimirem adequadamente as ausências dos professores.
Penso que este modelo é único e vai de encontro às melhores expectativas da comunidade. Não se fica pelo simples entretenimento entre quatro paredes e potenciam-se os espaços e recursos da escola de modo a que quando algum professor falta os alunos tirem algum proveito pedagógico e o docente substituto dignificado através da realização de actividades pedagógicas relevantes e significativas.Até aqui tudo corre bem. O problema surge na implementação.
Quando chega o momento de concretizar esta ideia surgem problemas de difícil resolução e mesmo conflitos de interesse. Passo a expor alguns de modo sucinto.
Existe a necessidade de encaminhar os alunos para os diferentes espaços assim alunos são divididos em grupos previamente estabelecidos com o director de turma e encaminhados por um funcionário que segue as orientações estabelecidas. Consequências:
De todas para mim o aspecto mais significativo é o conflito existente entre uma actividade que visa colmatar uma ausência de um professor cuja relevância pedagógica/educativa por muito válida que seja será sempre menor que a actividade planeada que um professor pretende realizar com a sua turma nesses espaços.
Uma análise de comportamentos colocaria provavelmente ênfase nas dificuldades sentidas pelos alunos e professores em se adaptarem a novas formas de estar. Mas nem os alunos se sentem respeitados, aparecendo-lhes hoje um professor amanhã outro, nem os professores têm disponibilidade para preparar outras actividades, mais interessantes, com o pouco tempo que já lhes resta para preparar as suas próprias aulas.
Dadas as dificuldades de implementação cai sobre a escola (professores e alunos) a sombra mais fria: as aulas de substituição.